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Qual a importância da análise curricular na escolha do Engenheiro do Ano?  

Alfredo Moreira Filho
Alfredo Moreira Filho

Prêmios concedidos por conselhos regionais de engenharia não saem de votação aberta. O prêmio Engenheiro do Ano, nas suas versões estaduais, costuma nascer da indicação dos próprios pares e passar por análise curricular de uma comissão, quase sempre em parceria com a associação de classe da especialidade. A placa, portanto, não mede popularidade. Mede obra técnica que outros profissionais conseguem examinar de perto.

Em engenharia agronômica, essa obra raramente cabe em uma linha de currículo. Ela aparece em decisões de campo: qual cultura entra em qual gleba, em que época semear, o que fazer com um solo que a literatura descreve como impróprio. O empresário Alfredo Moreira Filho foi distinguido com esse título pelo CREA do Amazonas depois de anos de trabalho técnico no interior do estado.

O que um conselho regional examina antes de conceder o título?

A avaliação começa muito antes da solenidade. Colegas de profissão indicam nomes, a comissão analisa o histórico apresentado e confronta o que o candidato assinou com aquilo que a assinatura produziu. Entram na conta os cargos exercidos, os projetos implantados, a responsabilidade técnica assumida e a participação em entidades de classe. Não há prova nem concurso. Há julgamento feito por quem conhece o terreno e sabe separar cargo de resultado.

Esse desenho explica por que o reconhecimento costuma chegar tarde na carreira. Um agrônomo recém-formado pode ser brilhante e ainda assim não ter o que mostrar, porque o ciclo agrícola impõe seu próprio calendário: uma recomendação de manejo só se confirma depois de duas ou três safras seguidas. Alfredo Moreira acumulou esse tempo em órgãos de abastecimento e fomento agropecuário no Amazonas, quando a extensão rural ainda se estruturava na região.

Por que a recomendação de manual não sobrevive ao solo amazônico?

O pacote técnico que funciona no Sudeste chega à Amazônia e falha logo na primeira safra. Os solos predominantes da região são ácidos, muito lixiviados pela chuva constante e pobres em nutrientes disponíveis. A floresta quase não depende deles: a ciclagem acontece na serrapilheira, camada superficial formada pela decomposição de folhas, galhos e restos de animais. Derrubada a cobertura, essa fábrica de nutrientes para de funcionar.

As exceções são poucas e bem localizadas. As várzeas recebem sedimento a cada cheia e renovam sozinhas a fertilidade. Existem ainda as terras pretas de índio, manchas escuras de origem antrópica, formadas pelo descarte de matéria orgânica em antigas ocupações indígenas, com teores altos de cálcio, fósforo e carbono. Reconhecer essas manchas no meio de um latossolo amarelado é trabalho de campo, não de escritório.

A mancha de terra preta é a decisão que sustentou o título

Às margens do rio Urubu, perto de Itacoatiara, um platô de solo orgânico escuro acompanhava por algumas centenas de metros a praia de areia branca. Naquele trecho foi implantada uma lavoura de feijão-de-corda de cerca de 30 hectares, descrita como a maior área contínua da cultura no estado. Alfredo Moreira Filho descreve o episódio no livro “Pequenas Histórias e Algumas Percepções”. Foi essa plantação que levou seu nome ao conselho.

A escolha não foi ousadia, foi leitura de solo. Terras pretas aparecem com frequência justamente nas margens de rios, inclusive nos de águas negras, como o Urubu, em manchas que, na maioria dos sítios, não passam de poucos hectares e com camada escura entre 30 e 60 centímetros. Uma leguminosa de ciclo curto aproveita essa fertilidade acumulada sem exigir correção pesada do terreno e responde dentro da mesma estação seca.

O que um título profissional realmente mede?

Uma honraria dos anos 1980 continua dizendo algo hoje porque, atrás dela, existe uma decisão de manejo que pode ser reconstituída inteira: qual solo, qual cultura, qual resultado. Prêmio que só registra tempo de casa envelhece mal, e por um motivo simples. Ninguém consegue conferir depois o que ele reconheceu.

Vale para quem está começando agora. O que sustenta uma carreira técnica não é a quantidade de cargos ocupados, e sim o número de decisões que resistiram à conferência de outro profissional da área. Alfredo Moreira trocou mais tarde a agronomia pela gestão empresarial, e o método que carregou é o mesmo em qualquer campo: entender o terreno antes de propor a solução.

Sobre o autor

Rafael Solviera

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