Na ótica da psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio, a ambivalência afetiva acontece quando sentimentos opostos, como amor e medo, coexistem em relação à mesma pessoa, sem que um anule o outro. Esse conflito interno costuma ser mais intenso em vínculos marcados por oscilações entre carinho e tensão, o que ajuda a explicar por que tantas pessoas se sentem divididas diante de uma relação que machuca. Compreender essa ambivalência, sem julgamentos, é um passo importante para olhar com mais clareza e menos culpa para os próprios sentimentos.
O que significa amar e temer ao mesmo tempo?
Em termos simples, a ambivalência é a experiência de sentir duas coisas que parecem contraditórias ao mesmo tempo. Uma pessoa pode admirar alguém e, ao mesmo tempo, sentir raiva. Pode desejar proximidade e, no mesmo instante, querer distância. Esse fenômeno é descrito pela psicanálise como parte comum da vida emocional, e aparece em quase todas as relações importantes, inclusive entre pais e filhos, amigos e casais.
O que diferencia as situações é a intensidade e o contexto. Em relações saudáveis, a ambivalência costuma ser leve e passageira, como um momento de irritação que convive com o afeto. Já em vínculos em que o medo é frequente, o conflito interno ganha peso, porque a pessoa passa a se perguntar se o que sente por quem a machuca pode ser considerado amor, e se sentir esse amor significa estar errada.
Por que a ambivalência é comum em vínculos que oscilam entre carinho e tensão?
Quando uma relação alterna momentos de afeto com episódios de agressividade, como acontece no ciclo da violência, a mente fica diante de duas imagens muito diferentes da mesma pessoa: aquela que cuida e aquela que assusta. Como é difícil conciliar as duas, surge a tentativa de entender qual delas é a verdadeira, e é nesse intervalo que a ambivalência se instala, algo frequente em quem vive um relacionamento abusivo.
O carinho que aparece depois da tensão tem um efeito poderoso, explica Taiza Tosatt Eleoterio, pois aliviar o medo gera gratidão e esperança. Dessa maneira, a pessoa passa a valorizar os momentos bons e a esperar que eles se repitam, enquanto os momentos difíceis são lembrados com dor, mas também com a vontade de acreditar que foram exceção. Esse movimento não revela fraqueza, e sim a forma como o psiquismo tenta preservar um vínculo importante.
Além disso, laços construídos ao longo de muitos anos, com filhos, projetos e rotinas compartilhadas, reforçam a ambivalência. Quanto mais se investiu afeto e tempo, mais difícil é admitir que a relação também causa sofrimento, e mais intensa se torna a oscilação entre o desejo de permanecer e o desejo de se proteger.
A culpa que costuma acompanhar sentimentos contraditórios
Um dos efeitos mais pesados da ambivalência é a culpa. Muitas pessoas sentem vergonha de ainda amar quem as magoou, ou de sentir medo de alguém que também demonstra cuidado. Essa culpa surge porque existe uma expectativa social de que os sentimentos sejam coerentes: quem é machucado deveria deixar de amar, e quem ama deveria confiar.
Taiza Tosatt Eleoterio considera fundamental desfazer essa ideia. Sentir amor e medo ao mesmo tempo não é contradição nem defeito de caráter, e sim uma resposta humana a uma situação complexa. Quando a pessoa se cobra por sentir de forma ambígua, tende a esconder o que vive, a evitar falar com quem poderia apoiá-la e a duvidar ainda mais das próprias percepções. Por isso, acolher a ambivalência sem julgamento é uma forma de proteger a saúde mental.
Vale lembrar que a ambivalência também pode ser confundida pelos outros com indecisão ou falta de coragem. Comentários como “se você ainda ama, não deve ser tão grave” ou “se tem medo, por que não vai embora?” ignoram a complexidade do que se passa por dentro, e aumentam o isolamento de quem já se sente confuso.
Como acolher o que se sente sem pressa?
Reconhecer a ambivalência é um processo que exige tempo, e a pressa costuma atrapalhar. Para Taiza Tosatt Eleoterio, o primeiro passo é permitir-se sentir sem classificar de imediato o que é certo ou errado. Isso significa aceitar que é possível sentir saudade e alívio, afeto e medo, esperança e cansaço, sem que nenhum desses sentimentos invalide os outros.
Nesse caminho, Taiza Tosatt Eleoterio sugere que conversar com pessoas de confiança e contar com acompanhamento profissional ajuda a organizar os pensamentos e a diminuir a sensação de estar sozinho com um conflito sem saída. Também contribui observar como o corpo e as emoções reagem em diferentes momentos da relação, pois essas percepções oferecem pistas sobre o que faz bem e o que gera sofrimento. Aos poucos, a pessoa passa a enxergar o próprio ritmo como legítimo e deixa de exigir de si respostas rápidas para questões profundas.
Como olhar para a ambivalência sem se julgar?
Olhar para os próprios sentimentos com curiosidade, e não com cobrança, muda a forma como a ambivalência é vivida. Em vez de perguntar “por que eu sinto isso?”, como se houvesse algo errado, é possível perguntar “o que esses sentimentos estão me dizendo sobre a minha situação?”. Essa mudança de perspectiva abre espaço para decisões mais conscientes e para um cuidado maior com a própria segurança.
Para quem acompanha alguém que vive essa divisão, a atitude mais valiosa é a escuta sem pressão. Evitar cobranças, respeitar o tempo da pessoa e lembrar que ela não está sozinha fortalece o vínculo de confiança e mantém aberta a possibilidade de que, quando ela se sentir pronta, peça ajuda.
Quando os sentimentos deixam de ser um problema a resolver
Ao olhar para esse cenário, é possível compreender que a ambivalência afetiva é uma das experiências mais humanas e, ao mesmo tempo, uma das mais incompreendidas. Ela não indica fraqueza, nem falta de clareza, e sim a complexidade de viver um vínculo que traz, ao mesmo tempo, afeto e sofrimento. Reconhecê-la sem culpa é o que permite olhar para a própria história com mais respeito e cuidado.
Taiza Tosatt Eleoterio reitera que sentimentos contraditórios não precisam ser resolvidos de imediato para serem acolhidos. Com escuta, apoio e informação, a pessoa tem mais condições de recuperar a confiança em si e de decidir, no seu ritmo, os caminhos que fazem sentido para a sua segurança e o seu bem-estar.











Adicionar um comentário